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Até a próxima crise
A edição do conhecido jornal de finanças Wall Street Journal traz na sua edição deste dia 20 de novembro, a matéria onde afirma que quinze executivos de grandes firmas financeiras e construtoras levaram cada um, mais de US$ 100 milhões em compensações e dividendos de ações antes de explodir a atual crise dos mercados.

Décio Baptista Pizzato
por Décio Baptista Pizzato
Texto publicado em 20/11/2008* - 16:34, quinta-feira.
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E mais, quatro desses executivos, incluindo os presidentes do Lehman Brothers e do Bear Stearns, estiveram à frente de companhias que foram à bancarrota ou viram uma queda de 90% na cotação de suas ações. O jornal analisou as declarações financeiras de 120 companhias que tem ações no mercado, em setores como bancos, financiamento de hipotecas, empréstimos estudantis, corretagem de bolsa e construção de casas. Esse estudo mostrou que os executivos principais, e integrantes de direção dessas empresas embolsaram mais de US$ 21 bilhões nos últimos cinco anos.

Com o estouro da bolha do crédito os investidores no mercado de ações dos Estados Unidos perderam mais de US$ 9 trilhões em um ano. Fica claro ver quem ganhou e quem perdeu com a atual crise. Crise iniciada pela aplicação de modelos complexos desenvolvidos para serem utilizados nas concessões de crédito. Tudo aconteceu sob o olhar complacente do homem mais poderoso do sistema financeiro americano, Alan Greenspan, que presidiu o Federal Reserve - FED de 1987 a 2006. Manteve uma atitude ideológica contra a regulamentação do sistema financeiro americano, que na sua visão o mesmo deveria se auto regular. Parece que não via ou não queria ver, já que no período que presidiu o FED, aconteceram a contaminação da crise da Ásia, a moratória russa e o estouro da bolha especulativa das empresas de internet.

Em 1998 houve a quase quebra do mega fundo de investimentos LTCM - Long Term Capital Management. O sistema financeiro internacional ficou estarrecido, pois acreditava que o mesmo tinha a bússola que orientava como derrotar o mercado. As suas diretrizes eram estabelecidas nada mais nada menos do que pelos prêmios Nobel de Economia, Robert Merton e Myron Scholes, que eram seus sócios.

Na ocasião o LTCM usou como indutor para seus negócios o método de analises quantitativas para aplicações financeiras. Não levaram em conta os fundamentos da economia e das empresas. Era tal a reputação de vencedor deste fundo, que grandes bancos aportaram recursos, fazendo com que a sua alavancagem beirasse a casa de US$ 1 trilhão, pois o seu grau de probabilidade de acerto era de 99,9%, segundo o modelo aplicado. De repente a casa caiu, o LTCM veio abaixo, precisando ser socorrido pelo FED e um pool de mais 14 bancos, que assumiu o seu controle. O que aconteceu com o LTCM vem demonstrar que em momentos de grandes turbulências econômicas e um mercado altamente volátil e nervoso, métodos, teorias e outras fórmulas desenvolvidas não funcionam, e só voltam a dar rumos a serem seguidos quando a situação se amainar.

As crises não acontecem por acaso, teorias acadêmicas são só boas para os doutos, afinal os seus salários são pagos por instituições de ensino e pesquisa. Agora devem estar esfregando as mãos de felicidade. Esta nova crise vai garantir seus empregos por mais alguns anos. Onde o sonho de cada um é criar uma nova teoria, um novo modelo a ser usado pelo mercado, que permita auferir lucros fabulosos.

Mas onde está a origem dessas crises? O falecido economista, John Kenneth Galbraith, professor - emérito de Economia em Harvard, disse em um de seus brilhantes artigos sobre a crise da Ásia em 1997, que “A fragilidade é o produto natural de um longo período de especulação no mercado de ações, nos instrumentos financeiros relacionados e em bens imóveis. Os preços dos valores mobiliários (securities) aumentaram porque os investidores, pequenos e grandes, pensavam, ou foram induzidos a pensar que sempre subiriam. Essa suposição determinou novas compras, elevando os preços cada vez mais - a clássica bolha especulativa”. A questão básica é tão antiga quanto o capitalismo financeiro em si. O sucesso cria confiança e leva a um excesso de autoconfiança. A ganância sobrepõe-se à prudência. Então, algo inesperado acontece e levanta dúvidas. O medo se torna contagioso. É o que está acontecendo agora, mais uma vez. A sensação de poder auferir lucros fantásticos apenas pelas decisões de comprar ações, ou aplicar em fundos, não levou em conta que não está sendo feito um investimento, fazendo com que acontecesse mais uma vez. Não viram que o acontecia era algo fora da realidade. São os primeiros que obtém ganhos, aos demais o prejuízo. Não devem ser esquecido os executivos que limparam o cofre, antes de todo mundo, como mostra a matéria do Wall Street Journal.

Agora, todos voltam a gritar em alto e bom som: investimentos no sistema financeiro, nunca mais! Outros cantos de sereias virão, atraindo novamente os que ficarão cegos pela ganância. Portanto, até a próxima crise.
   
  

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