Gosto das janelas abertas de par em par, grandes janelas, luz do sol se perdendo entre os cantos. Contudo, escrevo nesse momento entre paredes escuras, da janela entreaberta, mal se vê o dia. E há nuvens no céu.
De certo que teu esforço em me conhecer será pelo olhar cuidadoso de quem não espera o que encontrar. Nem eu mesma sei o que encontraria em mim se enfim essa busca eu me permitisse.
Gosto das flores, de amplas paisagens, do barulho da água e do vento entre as árvores. Parece que me contam segredos. Contudo, o vento que corta a minha alma geme entre os prédios, de construções desorientadas e sem significado.
Não pretendo que me queiras perto, nem o aspiro, pois assim eu sou. Não podem as estrelas me encontrar na noite escura nem os livros me prenderem entre as suas traiçoeiras páginas que a tudo registram.
Sou para ser esquecida de todo, apenas uma vaga lembrança. Os dias são tantos e as horas demoram a passar se ainda demora a me conhecer. Vai embora, vai logo, que não passa ainda do teu tempo e muito ainda tens a viver.
Gosto da fumaça das canecas fumegantes de chá, no meio da tarde, e ler debaixo das árvores do parque. Faço de conta, algumas não raras vezes, que sou senhorinha de tempos idos, como capricho pros dias corridos que vivemos.
E não demora, logo vem o ônibus e a nossa conversa terá de ser continuada num outro dia. Não espere por modernidades. A excentricidade me toma de todo e prefiro deixar recados largados no banco da praça pra você ler num outro momento.
Gosto de pintar nas páginas em branco dos livros que leio. Com anseio, deixo ali algo de mim que não compreendo, quase sempre eu podia jurar que nunca tinha rabiscado antes alguma coisa de tal tipo.
A noite que veio sorrateira, agora preenche todos os cantos e meu olhar erra no escuro. Da janela do ônibus, os pingos da chuva imaginária completam o cenário aconchegante de um inverno sem lareira, taças de vinho ou cobertas quentes.
Gosto das nuvens pesadas da manhã quando acordo e mal enxergo que já é dia. Mas estou longe delas, porque aqui não acontecem essas coisas. Só há prédios e carros apressados. Não tem importância. Fecho os meus olhos que ainda permanecem abertos, e me encontro onde o vento não geme, mas traz as conversas das árvores sobre as coisas que não sei sobre mim. |  | |