Já amava os animais antes mesmo de me saber gente e falo daquela classe de sentimentos que não precisam ser explicados...
Foi outro dia, revirando meus álbuns, que cheguei a esta conclusão. Visitei os registros do primeiro parto de gatinhos a que assisti depois de adulta. A experiência foi mágica, em uma tarde de sábado na Porto que nem sempre me faz Alegre. Era o milagre da vida se materializando a centímetros dos meus olhos e deles vertendo lágrimas.
Em instantes, revi minha infância, no interior do interior, em meio a cachorros, gatos, galinhas, vacas, coelhos, porcos... Tenho as melhores lembranças do manejo dos filhotes de ovelha e coleta dos ovos, responsabilidades minhas naquele mundo que, visto de um nível tão próximo do chão, em tudo era grandioso... Quanto medo e ao mesmo templo deslumbre com os cavalos, rápidos e espaçosos, em seu bailado exibido...
Sim. Estou sensível. A imagem do bezerrinho em Barretos, que ficou tetraplégico e foi abatido depois de uma prova, não me sai da cabeça. Em 18 anos trabalhando com comunicação e leitora voraz de jornais, não me recordo de outra notícia que tenha me tocado tanto. Estive há pouco no supermercado e não consegui ir até a sessão de carnes, me pegando emocionalmente mexida. Em meio a batatas e cebolas, fiquei pensando na inutilidade dos rodeios, no egoísmo do ser humano que, ao seu jugo, tudo deseja submeter, na dor do bichinho. Só queria chegar em casa e afofar meus gatos.
A Miara, a Pipoca e o Peppe, nesta ordem de chegada e na inversa quando a pauta é calma e tranquilidade, são responsáveis por muitos dos meus momentos de alegria. Pelo miado, sei quem chama e o que deseja. Cada um, com seu jeitinho e personalidade, foi entrando na casa, na minha vida e tomando seu espaço. Nem sei como seria viver sem eles e tive uma mostra disso recentemente, quando o Peppe escapou, na volta da clínica veterinária, e ficou sete dias na rua. Eu, que nem católica sou, acendi vela e incenso para São Francisco, o padroeiro dos animais, doendo em saudade. No início, pedia para voltar; depois pedia para estar bem; e, no final, só queria que encontrasse um lar; não precisava ser o meu. Ficava pensando que podia estar com frio, fome, doente e o pior: morto. Quando o localizei, machucado e assustado com a presença de mais pessoas, ele acabou me mordendo e, mesmo diante do estado lastimável das minhas mãos, confesso que fiquei na dúvida se ia antes eu para o hospital ou ele para a clínica. Fui eu ao hospital e, nos dias que se seguiram, vi um gatinho manso, dócil, feliz por estar novamente domiciliado, lambendo as 12 marcas de seus dentes agora cicatrizadas, em minhas mãos.
Quem não gosta de animais não percebe a troca afetiva que pode haver entre humanos e bichinhos. Não tolera sofás estragados por unhas descamadas. Acha uma despesa fora de lógica o tanto que se gasta com areia, ração, consultas, roupinhas, banhos... Quem não gosta de animais comete abusos, machuca e faz rodeios... De gente assim eu tenho vergonha, como ser humano, e falo de uma classe de sentimentos que se entende, se explica, mas que não precisaria existir. |  | |